Pedro Nogueira e os 197 km do Last Man Standing
Pedro Nogueira fechou 29 voltas e 197 km no Last Man Standing, no Maine, ficou entre os seis últimos de 203 largadas e recebeu a sigla DNF.

Ao meio-dia de sábado, 5 de setembro, 203 corredores largaram juntos numa trilha de floresta em Pineland Farms, no estado americano do Maine. A regra da prova cabe em uma frase: uma volta de 6,7 quilômetros começa a cada hora cheia e precisa estar completa antes de o relógio virar.
Quem fecha dentro do tempo ganha o direito de largar de novo, na hora seguinte. Depois na outra. A prova continua enquanto houver mais de uma pessoa capaz de repetir isso.
Perto de trinta horas depois do tiro inicial, restavam seis pessoas de pé. Uma delas era o brasileiro Pedro Nogueira.
Como funciona uma backyard ultra
O formato tem nome, sobrenome e endereço. Foi criado por Gary Cantrell, conhecido no ultra como Lazarus Lake, e estreou em 2011 no quintal da casa dele em Bell Buckle, no Tennessee, com o nome do cachorro da família: Big's Backyard Ultra.
A distância da volta tem uma lógica exata. São 4,167 milhas, ou 6,706 quilômetros, medida escolhida para que vinte e quatro voltas seguidas fechem exatamente 100 milhas em um dia. O relógio funciona como adversário: o corredor que gasta cinquenta minutos numa volta descansa dez, e o que gasta cinquenta e oito descansa dois.
O regulamento também define o desfecho de um jeito incomum. Vence quem completar uma volta sozinho, depois que todos os outros pararem. Todo o restante do pelotão recebe a mesma anotação na planilha oficial, do primeiro que desistiu ao penúltimo que ficou de pé: DNF, did not finish.
O Last Man Standing Ultramarathon roda esse formato numa volta de 4,2 milhas pelas trilhas de Pineland Farms, em New Gloucester, com largada sempre ao meio-dia de sábado, segundo a organização da Back 40 Events.

A prova de Pedro Nogueira, hora a hora
O próprio atleta publicou o boletim da prova em tempo real, e a sequência funciona como um retrato da atrição do formato.
Na volta 10, com 67 quilômetros cumpridos, ainda havia 100 corredores em pé. Na volta 22, com 147,4 quilômetros, restavam 21. Ele já tinha atravessado a noite, o frio e a chuva, e tinha largado gripado. Na volta 28, com 187,6 quilômetros, sobravam seis.
Pedro entrou na volta 30 e parou no quilômetro 197. A organização creditou a ele 121,8 milhas de trilha. A conta em quilômetros e a sigla vieram do próprio corredor, na legenda que ele escreveu horas depois: "LMS 2026, DNF LAP 30, 197KM".
Cento e noventa e sete quilômetros equivalem a quase cinco maratonas emendadas, sem cama, sem pausa longa, com o cronômetro recomeçando a cada sessenta minutos.

Oito meses e 4.753 quilômetros de preparação
Pedro chegou ao Maine vindo do asfalto. Na maratona de Nova York ele cruzou em 3h27, com pace de 4:55 por quilômetro, tempo de quem treina para ser rápido. Depois apontou o calendário para o extremo oposto da corrida.
O ciclo começou em janeiro, com os primeiros 50 quilômetros, e somou 4.753 quilômetros até a largada. No meio do caminho couberam uma maratona inteira na esteira em 4h24, um back2back de 105 quilômetros na quarta e outros 105 no sábado, e um simulado solitário de 149 quilômetros em 17h47 antes do polimento.
Fila, Z2 e Aimo acompanharam o ciclo do começo ao fim. É o tipo de investimento que se mede em meses de treino, e vale colocar ao lado do que a Fila vem fazendo na corrida brasileira com o Racer Speedzone 2. Trinta horas de prova também explicam por que a estratégia de gel de carboidrato vira assunto técnico nessa distância.
O que a planilha registra, e o que ela deixa de fora
O título de 2026 ficou com o americano Ryan Metivier, pela quarta vez seguida, com 151,2 milhas, o equivalente a 36 voltas, ou pouco mais de 240 quilômetros. A organização anunciou o resultado dizendo que ele superou outros 202 competidores.
As 29 voltas fechadas por Pedro carregam um dado que a sigla DNF esconde. Elas teriam vencido essa mesma prova em 2017, quando o título saiu com vinte voltas, em 2018, com vinte e seis, e em 2019, com vinte e oito, de acordo com a base histórica da Deutsche Ultramarathon-Vereinigung. Entre as 719 marcas que essa base registra nas edições de 2017 a 2025 do Last Man Standing, apenas 17 passaram dos 194 quilômetros.
A prova ficou mais dura ano após ano. O primeiro campeão que a base registra, em 2017, parou em 134 quilômetros. Metivier venceu a edição de 2025 com 288.

O que 197 quilômetros revelam
A corrida de rua brasileira passou a última década construindo uma cultura de prova, de clube e de pace. O que Pedro levou para a floresta do Maine é a versão mais crua dessa cultura: um corredor de asfalto entrando num formato onde a recompensa por ir bem se resume ao direito de começar tudo de novo, sessenta minutos depois.
A planilha oficial trata igual quem parou na terceira hora e quem correu trinta. O formato foi desenhado assim e mede a dureza da prova com precisão. A leitura do feito fica por conta de quem entende o que 197 quilômetros custam, e essa leitura já move marca, mercado e calendário no Brasil muito antes de qualquer pódio.
Fonte: back40events.com

