Messi se aposenta da seleção argentina: a redenção completa
Aos 39 anos, Messi encerra 20 anos de seleção argentina com 207 jogos e 125 gols. A história de uma relação que quase acabou em 2016 e foi refeita.

Em 26 de junho de 2016, no MetLife Stadium, em East Rutherford, Lionel Messi bateu o primeiro pênalti da Argentina na decisão contra o Chile e mandou a bola por cima do travessão. O jogo terminou 0 a 0, o Chile venceu por 4 a 2 nas penalidades e Messi anunciou naquela noite, ainda no vestiário, que estava fora da seleção. Era a terceira final perdida em três anos.
Dez anos depois, no mesmo estádio de Nova Jersey, ele jogou a última partida da vida pela Argentina.
O anúncio
Messi comunicou em 31 de agosto de 2026, aos 39 anos, o fim da carreira pela seleção. O texto saiu nas redes sociais, escrito em primeira pessoa, e ele revelou tê-lo redigido em 21 de julho, dois dias depois da final da Copa do Mundo.
Depois deste tempo que passou desde a final, e de pensar muito, quero comunicar a todos que me retiro da seleção.
Na mesma mensagem, a frase que resume o estado de quem chegou ao fim: "esvaziei-me, já não tenho mais para dar", conforme a íntegra publicada pelo jornal A Bola.
Ele deixa a Argentina com 207 partidas, 125 gols e 65 assistências. No armário ficam a Copa do Mundo de 2022, as Copas América de 2021 e 2024, a Finalíssima de 2022, o ouro olímpico de 2008 e o Mundial Sub-20 de 2005. A Associação do Futebol Argentino respondeu com um vídeo de homenagem, no qual o escudo da seleção conversa com o jogador.
As três finais que quase encerraram tudo
A relação entre Messi e a Argentina passou por um período em que romper parecia o desfecho natural.
Em julho de 2014, no Maracanã, a Alemanha venceu por 1 a 0 com gol de Mario Götze na prorrogação. Messi ainda teve uma falta no fim que passou perto. Levou a Bola de Ouro do torneio e subiu ao pódio com o rosto de quem preferia outra coisa.
Um ano depois, na Copa América do Chile, nova final e novo 0 a 0. O Chile levou nos pênaltis por 4 a 1. Messi converteu a sua cobrança. Gonzalo Higuaín e Ever Banega perderam as delas, e Alexis Sánchez fechou a série.
Em 2016 veio a Centenário, no MetLife, e o roteiro se repetiu com um detalhe cruel: dessa vez quem errou foi ele. Messi tinha marcado cinco gols na campanha e chegou à decisão como o melhor jogador do torneio. Errou o pênalti e anunciou a saída, segundo o registro da final.

A Argentina reagiu como país. O então presidente Mauricio Macri pediu publicamente que ele reconsiderasse. Torcedores se organizaram nas ruas de Buenos Aires. Ele voltou atrás meses depois, e a segunda parte da história começou ali.
A sequência que refez tudo
O primeiro título veio em 2021, na Copa América, e veio no lugar mais simbólico possível para um argentino: o Maracanã, contra o Brasil. Depois disso, a Finalíssima de 2022 sobre a Itália em Wembley, a Copa do Mundo do Catar no fim daquele ano, decidida nos pênaltis contra a França, e a Copa América de 2024.
Quatro títulos em quatro anos, com o mesmo jogador, o mesmo número dez e a mesma seleção que tinha rejeitado dez anos antes. A carreira internacional de Messi tem duas metades quase simétricas, e a segunda é a que reescreveu a primeira.
O peso de Maradona
Durante duas décadas a Argentina mediu Messi por uma régua construída em 1986. Diego Maradona ganhou uma Copa carregando o país nas costas, e o México de 1986 virou o padrão contra o qual todo camisa dez argentino seria comparado.
A comparação era injusta e inescapável ao mesmo tempo. Maradona morreu em novembro de 2020, meses antes do título de 2021, e a Argentina passou a ter dois donos daquela régua em vez de um. O que a sequência de títulos fez foi encerrar o debate sem precisar vencê-lo.
O fim, no mesmo estádio do começo do fim
A última partida foi a final da Copa do Mundo de 2026, em 19 de julho, no MetLife Stadium. A Espanha venceu por 1 a 0 na prorrogação, com gol de Ferran Torres após cabeceio de Nico Williams, e conquistou o bicampeonato mundial, o primeiro desde 2010. A Argentina terminou o jogo com um a menos, segundo o resumo oficial da FIFA e a cobertura da CNN Brasil.
A simetria é quase literária. O estádio que recebeu o pênalti por cima do travessão em 2016 recebeu a despedida em 2026. No intervalo entre os dois jogos cabe uma Copa do Mundo, duas Copas América e a reconstrução completa de uma relação.
A despedida sem campanha
Vale registrar como o anúncio circulou. A mensagem saiu sem assinatura de marca, sem filme de despedida produzido, sem coleção comemorativa no mesmo dia e sem hashtag de campanha. Um texto escrito quarenta dias antes de ser publicado, guardado, e solto numa segunda-feira de agosto.
Num tempo em que aposentadoria de atleta grande costuma chegar embalada como lançamento de produto, com data marcada e patrocinador ao lado, Messi entregou a dele em texto puro. A decisão de comunicar assim revela a marca dele com precisão. Ela sinaliza que aquele momento pertencia à relação com o país, e que vendê-lo teria sido um erro de leitura.
O que fica
O arco de Messi com a Argentina ensina uma coisa que o esporte raramente entrega com tanta clareza: legado se constrói na segunda tentativa. A versão de 2016, chorando no vestiário do MetLife e desistindo da própria seleção, seria hoje uma nota de rodapé melancólica se a história tivesse parado ali.
Ela continuou porque ele voltou, e porque um país inteiro entendeu, tarde, que exigir de alguém a repetição de 1986 era uma forma de nunca deixar aquele alguém existir por conta própria.
O que a Argentina despede agora é o jogador que aceitou ser comparado por vinte anos e seguiu jogando. A medalha de 2022 fechou a conta esportiva. A carta de agosto fechou a conta afetiva. Entre uma e outra, ficou a lição de que a reverência de verdade se conquista no retorno.
Fonte: abola.pt

