Franco Baresi: 20 anos, um clube e a camisa 6 do Milan
Morto aos 66 anos, Franco Baresi jogou 20 temporadas só pelo Milan, venceu 6 scudetti e 3 Copas da Europa e teve a camisa 6 aposentada pelo clube.

A Internazionale olhou para o menino de Travagliato e decidiu que ele era pequeno demais. O irmão mais velho, Giuseppe, ficou. Franco atravessou Milão e foi bater na porta do outro clube da cidade.
O Milan disse sim. E ficou com ele por vinte anos.
Franco Baresi morreu em 31 de julho de 2026, aos 66 anos. O clube confirmou a notícia no mesmo dia. Em 2025, exames de rotina tinham identificado um nódulo pulmonar; ele passou por cirurgia e por imunoterapia, e o quadro se agravou nas últimas semanas, segundo o relato publicado pela Euronews.
Um único clube, do começo ao fim
Baresi nasceu em 8 de maio de 1960, em Travagliato, perto de Brescia. Estreou na Serie A em 1978, aos 17 anos. Vestiu a faixa de capitão aos 22 e a manteve por 15 temporadas, um recorde no clube. Jogou mais de 700 partidas oficiais e se aposentou ao fim da temporada 1996/97, aos 37 anos.
No meio desse caminho, o Milan caiu para a Serie B duas vezes no começo dos anos oitenta. Baresi ficou nas duas. Subiu com o clube nas duas, e as duas taças da segunda divisão estão na mesma lista de conquistas em que aparecem as Copas da Europa. Poucas linhas de currículo dizem tanto sobre um jogador.
A conta final, segundo o Hall da Fama do próprio Milan: 6 scudetti, 3 Copas da Europa, 2 Copas Intercontinentais, 2 Supercopas da UEFA, 4 Supercopas da Itália, 2 títulos da Serie B e 1 Copa Mitropa.
A defesa que virou método
O Milan de Arrigo Sacchi mudou a maneira como o mundo entende defender. A linha de quatro formada por Mauro Tassotti, Franco Baresi, Alessandro Costacurta e Paolo Maldini subia junta, marcava por zona, comprimia o campo e usava o impedimento como arma ofensiva. No centro daquele mecanismo estava um zagueiro de 1,76 m que lia o jogo dois lances adiante.
Baresi antecipava. Ele saía da linha, roubava a bola no pé do atacante e recomeçava a jogada com um passe limpo. Era um líbero moderno num tempo em que o líbero ainda era o último homem, e o gesto dele foi copiado por gerações de zagueiros que talvez nem saibam de onde tiraram aquilo.
O ponto mais alto veio em 1993/94. Naquela temporada, a defesa do Milan sofreu 15 gols em 34 rodadas de Serie A e emendou uma sequência de 929 minutos sem levar gol, recorde do campeonato italiano à época.
As três Copas de um capitão
A trajetória de Baresi pela seleção italiana tem um desenho que ninguém mais tem. Em 1982, na Espanha, ele foi convocado por Enzo Bearzot e se tornou campeão do mundo sem entrar em campo nenhuma vez. Em 1990, em casa, terminou em terceiro. Em 1994, nos Estados Unidos, chegou à final como capitão.
Ele é o único italiano a encerrar a carreira de Copas com um primeiro, um segundo e um terceiro lugar.
A final de 1994 concentra tudo o que ele representava. Baresi tinha sofrido uma lesão séria no menisco durante o torneio e voltou a tempo de jogar a decisão contra o Brasil, no Rose Bowl. Fez uma das grandes atuações defensivas da história das finais, segurando o ataque brasileiro por 120 minutos. Depois foi para a marca do pênalti e mandou por cima do travessão.
A imagem dele parado no gramado, mãos na cintura, camisa azul encharcada, é uma das mais duras que o futebol produziu. E é também a mais fiel ao personagem: o capitão que assumiu a primeira cobrança quando ninguém era obrigado a assumir nada. A partida entrou para o rol das decisões que o esporte nunca esquece, ao lado das outras que reunimos em as melhores finais de Copa da história.
A camisa 6
Quando Baresi se aposentou, em 1997, o Milan aposentou o número 6. É uma honraria que o clube reserva a pouquíssimos nomes, e que funciona como uma declaração simples: aquele lugar já tem dono.
Desde 2020 ele ocupava o cargo de vice-presidente honorário, presença constante em Milanello e em San Siro, com a mesma discrição de quando jogava.
O que Baresi deixa
O futebol aprendeu a celebrar quem faz. O gol, o drible, a assistência, o número que cabe em manchete. Baresi construiu uma carreira inteira do outro lado dessa equação, no ofício de impedir, antecipar e organizar, e mesmo assim virou um dos jogadores mais admirados da história do jogo.
Existe uma lição de cultura esportiva aí, e ela atravessa qualquer geração. A elegância de Baresi estava no gesto que economiza: o passo dado antes do adversário, a bola tirada sem carrinho, a linha que sobe no tempo exato. Uma estética construída em cima da inteligência, feita para quem sabe olhar.
Vinte anos, um clube, uma camisa. O tipo de fidelidade que o futebol moderno quase não permite mais, e que por isso mesmo ficou ainda maior depois que ele parou.
Fonte: acmilan.com

