Red Bull 24 Horas: o campeonato de esteira das crews
O Red Bull 24 Horas passa por sete cidades em 2026 e fecha a temporada em Belo Horizonte, nos dias 28 e 29 de novembro, com equipes de 16 corredores.

Três da manhã, e a esteira continua ligada. O regulamento obriga. Em cima dela está alguém que treina para dez quilômetros no asfalto e agora cumpre um turno de doze minutos decidido por uma planilha feita horas antes. Na tela ao lado, o placar corre em tempo real e mostra a diferença para o time da outra máquina, a dois metros de distância.
Esse é o retrato do Red Bull 24 Horas, o desafio que virou o evento mais disputado do calendário das running crews brasileiras. Em 2026 ele passa por sete cidades antes da Final Nacional, marcada para Belo Horizonte.
Como funciona o desafio
O regulamento é curto. Duas equipes de 16 corredores amadores recebem uma esteira cada, ligada das 8h de sábado às 8h de domingo. Vence quem acumular mais quilômetros. A máquina precisa permanecer em movimento durante as 24 horas inteiras, conforme o formato descrito pela organização.
Cada equipe nasce da soma de duas crews, oito corredores de cada lado. Gente que treina em bairros distintos, em ritmos distintos e com objetivos distintos divide um dia inteiro de revezamento sob o mesmo placar.
É aí que a prova deixa de medir pernas e passa a medir organização. Quem entra na madrugada. Quanto tempo cada um aguenta antes da troca. Quando arriscar um turno forte e quando segurar o ritmo para preservar quem ainda vai correr de novo às cinco da manhã.

O circuito de 2026, cidade por cidade
A temporada abriu em agosto e segue até o fim de novembro. As sete seletivas ficaram assim:
- Porto Alegre (RS): 1 e 2 de agosto
- Florianópolis (SC): 8 e 9 de agosto
- São Paulo (SP): 22 e 23 de agosto
- Campinas (SP): 5 e 6 de setembro
- Recife (PE): 12 e 13 de setembro
- Rio de Janeiro (RJ): 19 e 20 de setembro
- Belo Horizonte (MG): 10 e 11 de outubro
A Final Nacional acontece em Belo Horizonte, nos dias 28 e 29 de novembro, a primeira vez que a capital mineira recebe o desfecho da competição.
A escolha das crews seguiu o mapa que cada cidade já tinha. Porto Alegre entrou com Corre Canoas e VAMOO. Florianópolis, com Rio Tavibes e Supere Club. São Paulo levou Stab, O Corre, Giro Leve e Inimigos do Pace ao Sambódromo do Anhembi. Recife recebeu Movi, Tropa dos Gorilas, AGH Assessoria e Ipo Running, com as esteiras montadas na Avenida Rio Branco, no Centro Histórico, e treino aberto para a cidade.
De uma ponte em São Paulo a um circuito nacional
O desafio começou pequeno e cresceu rápido. Em 2024, a disputa aconteceu em um único endereço, a Varanda Estaiada, na Ponte Estaiada de São Paulo, com duas equipes de dez atletas que largaram às 9h de 6 de julho.
Na temporada seguinte, o formato virou circuito. Foram cinco seletivas espalhadas pelo país e uma Final Nacional no Parque Bondinho Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro. As equipes subiram de dez para dezesseis corredores, e a rivalidade entre crews ganhou um calendário para chamar de seu.
2026 dobrou a aposta: sete cidades, um mapa que vai de Porto Alegre a Recife, e a final fora do eixo Rio-São Paulo pela primeira vez.
Os números que a temporada passada deixou
A margem explica bem por que o formato prendeu a comunidade. As duas melhores marcas das seletivas de 2025 ficaram coladas: Inimigos do Pace e Stab somaram 333,88 km, e Afro Velozes e Bairros BH fecharam 333,47 km, de acordo com o balanço da classificação. Depois de um dia inteiro de revezamento, 410 metros separaram uma equipe da outra.
Na final, diante do Pão de Açúcar, o time de Stab e Inimigos do Pace, de Santo André, percorreu 343 quilômetros e levou o título. As duas equipes juntas passaram de 678 km. A equipe campeã fez 143 trocas ao longo do dia, e uma única participante assinou 42,92 km da conta, pouco mais que uma maratona sozinha dentro de um esforço coletivo.
Em agosto de 2026, a mesma dupla de crews venceu a seletiva de São Paulo e carimbou o passaporte para Belo Horizonte.

A estratégia que decide o placar
O trabalho pesado acontece na planilha. Na etapa de São Paulo, a Stab dividiu os corredores em blocos de três horas, com as entradas definidas pela condição de cada um no momento da troca. Os atletas em melhor estado ficavam de 15 a 20 minutos na máquina, seguindo uma meta de pace. Na reta final, os turnos caíram para dez minutos, em busca do sprint que fecha a conta.
A parte mais dura tem hora marcada.
A madrugada é a hora onde o bicho pega mesmo, porque fisiologicamente a gente precisa dormir. Mas aí a torcida faz toda diferença, principalmente nesse momento.
Nayara Yasmim, da Stab, à CNN Brasil
Sono, suplementação e ordem de entrada entram na mesma conta. Com o placar visível o tempo todo e o público a poucos metros, o cansaço de quem está em cima da esteira fica exposto para todo mundo. É uma ultramaratona travestida de logística, e ela cobra o mesmo tipo de resistência que aparece em formatos extremos como o backyard ultra, com a diferença de que aqui o resultado pertence ao grupo.
O que uma marca de energético construiu
A Red Bull entrou na corrida brasileira por um caminho próprio. Montou um campeonato com os grupos que cada cidade já tinha, deu a eles temporada, placar e final, e instalou tudo em endereços que a cidade reconhece de longe: o Sambódromo do Anhembi, o Centro Histórico do Recife, o mirante do Pão de Açúcar.
O movimento faz sentido para quem acompanha o crescimento dos clubes de corrida como mídia. As crews brasileiras já tinham audiência, ritual e senso de pertencimento muito antes de existir um troféu para disputar. O que faltava era um palco que tratasse aquele encontro semanal como competição de verdade, com regra escrita e adversário do outro lado.
A corrida costuma premiar o desempenho individual, o tempo pessoal, o pódio de um nome só. Este formato premia a inteligência coletiva de um grupo cansado às quatro da manhã, e quem corre acompanhado já sabia disso muito antes de aparecer um campeonato para provar. A marca entra no guarda-sol, no relógio e na lata gelada da troca de turno. O que fica de pé quando o sol nasce de novo é a crew, e a lembrança do dia mais longo do ano carrega o nome de quem montou o palco.
Fonte: redbull.com

