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Nike speed suit: o traje aerodinâmico de Keely Hodgkinson

A Nike vestiu Keely Hodgkinson com um traje de peça única, coberto de geradores de vórtice impressos em 3D. Ela venceu os 800 m do Athlos em 1min56s40.

Keely Hodgkinson corre de macacão preto com capuz na pista do Athlos, em Londres, com a arquibancada lotada ao fundo

Na sexta-feira à noite, em Londres, Keely Hodgkinson entrou na pista coberta da cabeça aos tornozelos. Macacão preto, capuz fechado no rosto, óculos escuros, luvas sem dedos. Por cima do tecido, centenas de pontinhos prateados em formato de delta captavam a luz do estádio.

Duas voltas depois, ela cruzou a linha dos 800 metros em 1min56s40, recorde da competição, com mais de dois segundos de vantagem sobre a segunda colocada. A suíça Valentina Rosamilia fechou em 1min58s75 e a francesa Rénelle Lamote em 2min00s15.

A roupa deu tanto assunto quanto o cronômetro. E é justamente aí que a história fica interessante.

O que a Nike colocou no traje

O speed suit é uma peça única, desenhada em torno do corpo de uma atleta só. O projeto saiu do centro de inovação da Nike em Oregon, depois de cerca de seis meses de iteração usando uma metodologia de modelagem que parte do corpo em movimento, ajustada para acomodar a amplitude máxima da passada dela.

Os pontinhos têm nome técnico: geradores de vórtice. São peças em formato de delta, impressas em 3D, distribuídas pelos ombros, coxas, tronco e capuz, com o arranjo calculado separadamente para cada parte do corpo.

A função deles é contraintuitiva. Eles criam pequenos redemoinhos que obrigam o ar rápido que passa ao redor do corpo a se misturar com a camada de ar lento grudada na pele. Isso reduz a esteira de baixa pressão que se forma atrás da atleta, e a esteira menor significa menos arrasto.

O resto da construção segue a mesma lógica: combinação estratégica de tecidos, costuras mínimas, nenhum fecho, joelho articulado e um reforço de mobilidade 4D patenteado. As costas ficam abertas e as cavas são largas, para o calor sair.

Retrato em preto e branco de Keely Hodgkinson de perfil, mostrando o capuz, a abertura para o rabo de cavalo e os geradores de vórtice em formato de delta no ombro e no tronco
Os deltas impressos em 3D ficam concentrados nos ombros, no tronco, nas coxas e no capuz. Foto de divulgação da Nike.

O detalhe que a atleta impôs

O capuz tem fendas laterais para encaixar os óculos e uma abertura no alto da cabeça para o rabo de cavalo passar. Essa abertura entrou no projeto porque ela exigiu.

A ciência dizia que, tecnicamente, com o arrasto do ar você é mais lenta com o cabelo solto. Mas eu falei: isso é inegociável. Meu cabelo fica solto.

Keely Hodgkinson, ao Sky Sports

Ela descreve o processo inteiro como um ano de ajustes e provas com o time de inovação, e resume o resultado como uma mistura de moda, velocidade e ciência. Dan Farron, vice-presidente de design de vestuário de inovação da Nike, colocou a mesma ideia do outro lado do balcão: "por mais que a gente esteja desenhando para a performance máxima, a gente também está desenhando para a expressão máxima".

O que o resultado de Londres permite concluir

Aqui entra a parte que o marketing prefere deixar de lado. O tempo de 1min56s40 fica dentro da faixa em que Hodgkinson já vinha correndo com roupa comum. Uma semana antes, em Budapeste, ela havia cravado 1min56s26, um pouco mais rápido, terminando atrás da suíça Audrey Werro.

A própria Nike divulgou o traje sem declarar nenhum número de redução de arrasto.

A referência científica mais próxima é um estudo de 2016, no qual pesquisadores mediram geradores de vórtice em manequins de tamanho real e encontraram redução de 3,7% a 6,8% no arrasto aerodinâmico em comparação com o vestuário de competição usado nos Jogos de 2012. Os autores modelaram uma economia conservadora de 4% para atletas homens. Esse trabalho analisou provas de velocidade, e deixou os 800 metros de fora da conta.

Faltam, portanto, dados independentes sobre quanto a tecnologia economiza em tempo ou em energia na distância que ela corre. O que existe até agora é uma hipótese de engenharia bem fundamentada, uma peça bonita e uma noite de estreia.

Keely Hodgkinson cruza a fita da chegada com a inscrição Athlos LDN26, com o dedo em riste e o pelotão atrás dela
A chegada em 1min56s40, recorde da competição. Uma semana antes, em Budapeste, ela havia corrido 1min56s26 com uniforme convencional.

A regra que existe para o tênis e a que existe para a roupa

O contraste regulatório explica muito sobre para onde a inovação está indo.

Depois da confusão gerada pelos supertênis de placa de carbono, a World Athletics montou um regulamento detalhado para calçados, com altura máxima de entressola por prova, limite de placas, lista de modelos aprovados e código de certificação. É um documento inteiro dedicado ao que se calça.

Para a roupa, a exigência técnica central cabe em uma frase: o vestuário precisa estar limpo, ser usado de forma não questionável e ser feito de material não transparente mesmo quando molhado.

Ou seja, o corpo do atleta segue sendo território aberto. Uma marca que queira ganhar centésimos ali encontra hoje muito mais espaço do que no solado.

Close do rosto de Keely Hodgkinson com o capuz preto, os óculos encaixados nas fendas laterais e os deltas coloridos no ombro do macacão
O capuz traz fendas laterais para os óculos e uma abertura no alto para o rabo de cavalo.

O palco também foi construído para isso

A estreia aconteceu no lugar certo. O Athlos é um meet só de mulheres criado por Alexis Ohanian, e Londres recebeu a primeira edição fora de Nova York, com o StoneX Stadium esgotado.

Foram 42 atletas em sete provas, disputando US$ 1.057.000 em premiação. Cada vencedora levou US$ 65 mil e uma coroa feita pela Tiffany & Co. Um evento desenhado como espetáculo, com fogo na chegada e transmissão aberta, é exatamente o tipo de vitrine que uma peça de inovação precisa para virar conversa.

Vale lembrar de quem estava dentro do traje. Campeã olímpica em Paris 2024, Hodgkinson abriu 2026 quebrando o recorde mundial indoor dos 800 metros com 1min54s87, em Liévin, e levando o título mundial indoor em Toruń. Depois baixou o recorde britânico ao ar livre para 1min54s33, em Estocolmo, e atravessou uma lesão na posterior da coxa que atrapalhou o calendário. Londres fechou a temporada dela.

Do pé para o corpo inteiro

A última década do atletismo foi contada pelo solado. A espuma supercrítica e a placa de carbono mudaram tabelas de recordes, criaram uma corrida armamentista entre marcas e obrigaram a federação a escrever regras novas. Esse movimento chegou até o treino híbrido e a prateleira de academia, e segue definindo como a comunidade escolhe tênis para o treino longo.

O traje de Londres aponta para o capítulo seguinte. Depois de otimizar o contato com o chão, a indústria olha para os outros noventa por cento do corpo, onde o ar oferece resistência e a regra ainda permite quase tudo.

Uma atleta vestida de preto dos pés à cabeça, com o cabelo solto ao vento por decisão dela, é a imagem mais precisa desse momento. A engenharia avança onde encontra espaço, a marca transforma esse avanço em imagem, e a pessoa dentro da roupa continua sendo quem decide o que vale a pena carregar na pista.

Fonte: about.nike.com

Kobe Bryant sentado numa arquibancada de madeira, lendo um livro.

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