MP das bets: o que muda no patrocínio do futebol brasileiro
A MP 1.394 tira as bets das camisas e de cerca de R$ 1,1 bilhão em patrocínios da Série A. O futebol brasileiro já trocou de financiador antes.

Em 17 de setembro, antes de qualquer assinatura, os maiores clubes do Rio e de São Paulo publicaram um manifesto conjunto nas próprias redes. O texto apareceu nos perfis de Flamengo, Palmeiras, Corinthians, Santos, Botafogo, Fluminense, Vasco e Grêmio, ao lado das federações paulista e carioca. O título era uma frase só: "O fim do futebol brasileiro".
Nos comentários, boa parte da torcida se posicionou contra os próprios clubes.
Oito dias depois, o governo federal publicou a medida provisória. E a conversa sobre quem paga a camisa do futebol brasileiro voltou ao centro da mesa, como já tinha voltado em outras quatro ou cinco ocasiões desde 1982.
O que a MP 1.394 determina
Publicada em 25 de setembro de 2026, a MP proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa em todo o país, inclusive quando o operador está fora do Brasil.
Os prazos são curtos. Em dez dias contados da publicação, sites e aplicativos precisam sair do ar, sob pena de bloqueio, e todo material publicitário e sinal de patrocínio deve ser retirado. Em trinta dias, as autorizações concedidas sob a Lei 14.790 se extinguem.
Na prática, isso coloca 5 de outubro como limite para saque de saldo, 6 de outubro como a data em que as plataformas saem do ar, e 25 de outubro como o fim das autorizações, sem devolução de outorga.
Para os clubes, a linha mais dura é a dos dez dias. Placa de estádio, camisa e qualquer sinal de patrocínio de casa de aposta saem de cena.
Quanto dinheiro sai da camisa
O mercado ganhou lei própria em dezembro de 2023, com a Lei 14.790, e passou a operar de forma regulada em janeiro de 2025. Em menos de dois anos, as bets tomaram o espaço mais caro do uniforme.
Hoje, 14 dos 20 clubes da Série A têm uma casa de apostas como patrocinadora máster, segundo levantamento da Sports Value. Os contratos somam cerca de R$ 1,1 bilhão por ano, o equivalente a aproximadamente 7% da receita total dos clubes de elite.
A presença vai além do peito da camisa. A Betano dá nome ao Campeonato Brasileiro e à Copa do Brasil. Os estaduais seguiram o mesmo caminho, e o Gauchão deste ano se chamou oficialmente Gauchão Superbet 2026.

Do banco à bet: a camisa do Flamengo em cinco anos
Um único contrato resume a escalada.
Em 2020, o BRB assumiu o patrocínio máster do Flamengo por cerca de R$ 32 milhões por ano. Em 2024, a Pixbet já pagava R$ 105 milhões. Em agosto de 2025, a Betano assinou até 2028 por R$ 268,5 milhões por temporada, bônus de performance incluídos. É o maior patrocínio máster da história do futebol brasileiro, e cobre também o futebol feminino, os esportes olímpicos e a FlamengoTV.
Em cinco anos, o mesmo espaço no peito multiplicou por mais de oito. Para efeito de escala, em 2013 a Peugeot pagava R$ 10 milhões ao clube.
O segundo colocado nesse ranking, o São Paulo, fica em torno de R$ 113 milhões com a Superbet. A distância entre os dois primeiros diz muito sobre o quanto o topo da tabela se descolou do resto.
O futebol brasileiro já trocou de patrocinador antes
A publicidade na camisa só foi liberada no Brasil em 1982, primeiro nas costas e, no ano seguinte, na frente. De lá para cá, cada década teve um setor dominante, e nenhum deles ficou.
Nos anos 80 vieram as bebidas. Em 1987, a Coca-Cola bancou parte da Copa União e estampou a maioria das camisas do torneio. Nos anos 90 chegou a cogestão: a Parmalat assumiu o Palmeiras em 1992 e ajudou a encerrar um jejum de 16 anos sem títulos. Em paralelo, a Petrobras manteve a marca Lubrax no Flamengo de 1984 a 2009, o patrocínio mais longevo da nossa história.
Depois vieram as estatais e os bancos. A Caixa patrocinou Flamengo, Corinthians, Santos e Vasco ao longo dos anos 2010. O Banrisul bancou Grêmio e Internacional ao mesmo tempo. A Crefisa ficou dez anos no Palmeiras. Montadoras e empresas de eletrônicos também tiveram a sua vez.
Cada ciclo pareceu definitivo enquanto durou. Todos acabaram, e o futebol seguiu em todos eles.
O outro lado da conta
Os números que sustentam a MP vêm de fora do esporte.
Um relatório do TCU divulgado em novembro de 2025 mostrou que 27% do valor repassado aos beneficiários do Bolsa Família em janeiro, cerca de R$ 3,7 bilhões, foi para sites de apostas. No mesmo mês, 802 mil famílias comprometiam de forma crítica mais de 2% da renda com casas de aposta on-line, um patamar que coloca em risco necessidades básicas.
Antes disso, em agosto de 2024, o Banco Central já havia identificado R$ 3 bilhões enviados às bets via Pix por beneficiários do programa em um único mês.
A conta pública segue a mesma direção. Um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde estima os danos das apostas em pelo menos R$ 38,8 bilhões por ano, dos quais R$ 30,6 bilhões ligados à saúde, com tratamento de transtornos de jogo, cuidado em depressão e prevenção ao suicídio. Em 2025, o setor recolheu cerca de R$ 9,95 bilhões em tributos federais. A relação fica em quase R$ 4 de custo social para cada R$ 1 arrecadado.
É contra esse pano de fundo que a frase do manifesto precisa ser lida.
O que vem pela frente
Como toda medida provisória, a MP tem prazo. O Congresso tem 60 dias, prorrogáveis por mais 60, para votar o texto. Sem votação, ela perde a validade.
A disputa já chegou ao Supremo. Em 28 de setembro, a ANJL e o IBJR, que representam o setor, pediram ao ministro Luiz Fux a suspensão da MP. O argumento central é a ausência de urgência que justificasse uma medida provisória, e as entidades citam dados da própria Secretaria de Prêmios e Apostas segundo os quais o volume financeiro caiu 42% entre outubro de 2025 e junho de 2026.
Há um precedente doméstico sobre o que costuma acontecer depois. O cigarro continuou à venda no Brasil, e perdeu o palco: a Lei 9.294, de 1996, começou a restringir a propaganda de tabaco, e a Lei 10.167, de 2000, proibiu o patrocínio de eventos esportivos e as placas em estádios.
Lá fora, o movimento é o mesmo. A Itália baniu a publicidade e o patrocínio de jogos de azar com o Decreto Dignità, de 2018. A Espanha tirou as casas de aposta dos uniformes com o Real Decreto 958/2020, dando aos contratos antigos prazo até agosto de 2021. E na Inglaterra foram os próprios clubes da Premier League que decidiram, em abril de 2023, tirar as bets da frente da camisa a partir desta temporada 2026/27, em votação de 18 a favor e duas abstenções. A regra inglesa cobre apenas a frente do uniforme de jogo, e deixa manga, uniforme de treino e placa de campo livres.
O que essa troca revela
O orçamento dos clubes vai encolher no curto prazo. A camisa que vale R$ 268,5 milhões hoje vai valer menos em 2027, e os contratos menores, de clubes sem exposição nacional, são os que vão demorar mais a ser repostos.
A leitura de marca, porém, aponta para outro lugar. A camisa de futebol é um dos inventários de mídia mais valiosos do país, e inventário valioso raramente fica vago por muito tempo. Outras categorias vão chegar, provavelmente de forma mais nichada e mais cara por clube, como aconteceu quando o clube de corrida virou ativo de mídia para marcas que antes compravam outdoor.
O que muda de verdade é o critério. Durante quase duas décadas, o futebol brasileiro vendeu o espaço mais nobre que tem para quem pagava mais, sem perguntar o que estava sendo anunciado ali. A camisa é o objeto mais afetivo do esporte, aquilo que a pessoa veste para ir ao estádio com o filho e que guarda por vinte anos. Ela carrega a marca de quem financia o clube, e essa marca entra na memória junto com o escudo, como a adidas entendeu ao colocar o Trefoil de volta nas camisas de 2026/27.
O futebol brasileiro já foi bancado por refrigerante, leite, petróleo e banco. Vai encontrar o próximo. A pergunta que fica para a próxima rodada de contratos é mais interessante que o valor: o que o clube aceita colocar no peito, e o que ele passa a recusar.
Fonte: marcaemovimento.substack.com

