A estética Trefoil: a adidas nas camisas de 2026/27
A adidas levou o Trefoil, símbolo criado em 1971, para as camisas de Real Madrid, Roma, Juventus, Arsenal, Bayern, Ajax e Celtic na temporada 2026/27.

O Real Madrid entrou em campo de verde-escuro. No peito, sobre o tecido com padronagem geométrica que repete as iniciais do clube, um símbolo que a torcida está acostumada a ver em loja de tênis e em jaqueta de rua: as três folhas do Trefoil.
O símbolo atravessa a temporada inteira. A adidas espalhou o Trefoil pelas camisas de 2026/27 de Real Madrid, Roma, Juventus, Arsenal, Bayern de Munique, Ajax, Al Nassr, Lyon e Celtic, e com isso mexeu numa fronteira que o futebol respeitava havia vinte e cinco anos.
O que é o Trefoil
O símbolo nasceu em 1971, desenhado por Hans Fick, e estreou a tempo dos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972. A data explica o desenho. Foi exatamente o momento em que a adidas saiu do território exclusivo do calçado e passou a fabricar vestuário pela primeira vez, e a marca precisava de um sinal que funcionasse costurado no peito de uma camisa.
As três folhas conversam com as três listras e, segundo a leitura da própria adidas, representavam as três massas de terra onde os produtos eram vendidos: Américas, Europa com África, e Ásia. Era uma declaração de alcance global feita em desenho.
O Trefoil vestiu o esporte inteiro nos anos setenta e oitenta. Em 2000, a marca o aposentou da linha de performance e o reservou para a adidas Originals, a divisão de lifestyle. A partir dali o símbolo virou código de rua, e as três listras assumiram o campo sozinhas.
O que muda quando o Trefoil volta ao campo
Trazer o Trefoil de volta ao uniforme de jogo apaga uma divisão que a própria adidas criou. Por vinte e cinco anos o futebol teve um logo, e o streetwear teve outro. A separação era clara: performance de um lado, cultura do outro.

A coleção 2026/27 usa esse retorno como licença estética. As camisas ficaram mais largas, com gola de botão, faixa horizontal, malha visível e paleta fora do óbvio. A Roma apostou num creme com faixa amarela e vermelha que parece foto de arquivo. A Juventus foi para o rosa, com padronagem em relevo e o cavalo preto no lugar de sempre. O Bayern trouxe um branco perolado com gola polo e detalhes em azul-marinho, num desenho que conversa direto com os uniformes que o clube usava quando o Trefoil ainda era padrão.

O Arsenal seguiu o azul-marinho com dourado e vermelho no colarinho. O Ajax apostou no preto com laranja queimado e grafismo escondido no tecido. O Celtic manteve as listras verdes, agora com recorte serrilhado no encontro das faixas. O Real Madrid ficou com o verde-escuro e off-white, cor que voltava ao guarda-roupa oficial do clube depois de mais de uma década, conforme a apresentação feita pelo próprio clube.

A decisão de negócio por trás da estética
Existe cálculo comercial aqui, e ele é bem feito. A camisa de futebol virou peça de guarda-roupa fora do estádio, comprada por gente que talvez nunca vá ao jogo. Colocar o logo da Originals nesse produto conecta duas prateleiras que a adidas mantinha separadas e amplia o alcance de cada uma.
O movimento também resolve um problema de diferenciação. Quando todas as marcas oferecem tecnologia de tecido parecida, o que sobra para disputar é repertório. A adidas tem um arquivo que quase ninguém no setor tem, e passou a usá-lo como argumento de venda. É a mesma lógica que a Umbro aplicou ao transformar o futebol global em streetwear na coleção Nations.
O que essa coleção revela
O futebol passou trinta anos perseguindo o futuro. Tecido que respira, corte que gruda no corpo, gola que some, tipografia digital. Cada temporada prometia uma camisa mais leve que a anterior, e o resultado foi um campeonato inteiro parecendo o mesmo campeonato.
A volta do Trefoil aponta na direção contrária. Ela sugere que o valor de uma camisa mora na memória que ela carrega, e que a torcida reconhece um símbolo antes de reconhecer uma tecnologia. Uma geração inteira cresceu vendo aquelas três folhas em foto de arquivo, em álbum de figurinha, na jaqueta que o pai guardou.
Colocar esse desenho de volta no peito de nove clubes é uma aposta na parte mais difícil de fabricar. Camisa boa se copia em uma temporada. Herança leva cinquenta anos.

