O tênis da Adidas para atletas com síndrome de Down que venceu Cannes
O Supernova Rise 3 Adaptive levou o Grand Prix no Cannes Lions 2026 e mostrou que inclusão pode nascer da engenharia, não do discurso. Um estudo de caso sobre marca, produto e negócio.

No Cannes Lions 2026, a Adidas levou um Grand Prix com um tênis. O Supernova Rise 3 Adaptive foi desenhado para atletas com síndrome de Down e provou uma tese que o mercado costuma tratar como slogan: inclusão também é negócio. O caso vale como aula de marca porque a decisão apareceu no produto, antes de aparecer na campanha.
O pé que a indústria nunca desenhou
Pessoas com síndrome de Down costumam ter características anatômicas no pé que dificultam o uso do tênis esportivo convencional. Por décadas, a indústria de calçado ignorou esse pé. A Adidas decidiu recomeçar do zero e redesenhar a estrutura inteira do tênis, tratando um público historicamente esquecido como ponto de partida de um projeto de performance.
Um produto que nasceu de escuta
O projeto levou três anos e começou ouvindo quem ia calçar o produto. Atletas, familiares e pessoas com síndrome de Down participaram do processo ao lado das equipes de engenharia, design, inovação e marketing da marca. Seis protótipos foram testados no mundo real, inclusive nas seis grandes maratonas do planeta, com Chris Nikic, o primeiro atleta com síndrome de Down a completar um Ironman.
Do processo saíram cinco mudanças estruturais: caixa frontal mais larga, sistema de cadarço de baixa pressão, fecho magnético e uma nova distribuição de peso, todas pensadas para um pé que nunca tinha sido o centro de um projeto de alta performance. Ali, inclusão virou engenharia, aplicada com o mesmo rigor de qualquer lançamento de ponta da marca.
A prova de que virou negócio
O que separou esse case de uma boa intenção foi o dado. O Supernova Rise 3 Adaptive entrou no portfólio regular da Adidas, vendido em 29 países, pelos mesmos canais e ao mesmo preço de qualquer outro tênis de corrida da marca, sem tratamento de produto especial. E o número decisivo apareceu na plataforma da Adidas nos Estados Unidos: 42% de quem comprou o tênis nunca tinha comprado da marca antes. O produto inclusivo abriu um público novo e virou a prova que faltava para o júri de Cannes.
Como resumiu Kazuhiro Shimura, presidente do júri do Innovation Lions e diretor executivo de criação da Dentsu, inovação é a transição da prova de conceito para a prova de mudança.
O que o case revela
Decisões assim mostram o que uma marca realmente é. A Adidas poderia ter transformado o tema em campanha e parado por aí. Ela preferiu colocar a inclusão dentro da engenharia, do preço e da distribuição, os lugares onde uma empresa de fato assume um compromisso. No fim, o gesto vendeu produto, ampliou audiência e ainda rendeu o maior prêmio da publicidade mundial. Uma prova de que cuidar de quem ninguém desenhou pode ser, ao mesmo tempo, o certo e o inteligente.

